| 24 Abril 2012
Diário de Bordo nº 19
Viajo milhares de quilômetros, tiro uma centena de fotos para escrever uma história, escrevo, reescrevo, reviso e, finalmente, publico-a no site. Depois de alguns dias confiro os acessos e... "meia dúzia" de internautas interage, escrevendo alguma mensagem.
No início deste ano descobri que estou com câncer e, num vatp-vupt, centenas de amigos, amigas e familiares entram em contato, telefonam, mandam mensagens solidarizando-se, sugerindo remédios, comidas, simpatias, etc.
Das duas, duas: não escrevo nem fotografo tão bem quanto pensava e tenho um monte de amigos maravilhosos que me alimentam a alma.
Este ano não deverei viajar, ao menos literalmente e, nos intervalos das quimioterapias, aproveito para concretizar velhos projetos, como o de expor algumas fotos, organizar um livro das viagens e, é claro, planejar a próxima viagem.
O tema da exposição será problemas ambientais, retratados nas viagens pela América do Sul. Enquanto selecionava as fotos (poluição, destruição de mangues, desmatamento, contaminação das águas, etc.), lembrei que nos últimos anos passei muito tempo viajando e, se por um lado é bom "voltar para casa", por outro, é triste constatar que os problemas ambientais daqui são iguais ou maiores que o de muitas regiões da América do Sul.
Sempre preferi o "Ilha das Bruxas" do velho Franklin Cascaes ao "Ilha da Magia" de alguns predadores transvestidos de empreendedores, mas vendo as incríveis mágicas que fazem, quase me rendo. Outro dia vi na TV um deles tirando da cartola a maquete de um mega hotel a ser construído na Ponta do Coral. Fantástico. A cada toque da varinha, novos "coelhos" pulavam da cartola. Ele fazia plim e 300 lanchas usando óleo diesel circulavam na marina do hotel sem poluir uma gota de um mar cor azul-mentira. Fazia plim-plim e as centenas de carros, vans e ônibus que chegavam e saiam do mega hotel, ao contrário de piorar, melhoravam o trânsito local.
Só consegui resistir ao encantamento do homem da cartola, quando lembrei das dezenas de mágicas iguais a esta que vi em outros lugares de nossa Pacha Mama. Todas desmascaradas pelo tempo.

Tempo, tempo, tempo. Às vezes gosto de brincar com a memória deixando-a avançar e recuar no tempo. Assim, balançando prá lá e prá cá, ela encontrou algumas fotos que tirei, no mesmo lugar, na década de 1980 e agora em 2012. Fiquei imaginando o que seria hoje se, há trinta anos, "alguns loucos" não tivessem lutado para acabar com o lixão do Itacorubi. A cada panfletagem ou passeata, tanto lá como agora, os homens de cartola aparecem com sua mágica fajuta, acusando: "são os contrários, os ecochatos".

Quanto tempo temos? Há algum tempo as questões sobre meio ambiente nos remetiam para um futuro distante, para gerações futuras. Hoje, qualquer coisa que façamos (ou não) agora terá consequências em 20 ou 30 anos, portanto, nas nossas vidas e na de nossos filhos.
Tempo, tempo, tempo. Tempo nosso. Tempo de nossos filhos. Avanço no tempo e imagino duas fotos da Ponta do Coral daqui a 20 anos. Em uma aparece um hotel decadente e uma enorme marina cheia de óleo. Na outra, um imenso parque público, o Parque Cultural das 3 Pontas (do Coral, do Lessa e do Goulart).
Assim como ocorreu no lixão do mangue de Itacorubi, uma das duas fotos da Ponta do Coral poderá tornar-se realidade. São as opções colocadas na mesa, faça sua escolha.
Acesse Parque Cultural das 3 Pontas para conhecer o projeto e assinar a petição pública pela criação do parque.
Este Diário de Bordo é minha declaração de amor a esta Ilha que me deu dois filhos, muitos amores e mais de uma centena de amigos e amigas.












